Trabalho voluntário: como é ser fotógrafo no Zimbábue – África?

Em minha segunda viagem como voluntário para a África, optei pelo programa de “Conservação e Fotografia da Vida Selvagem”, em Victoria Falls, Zimbábue. Basicamente, atuei como fotógrafo em uma ONG local. Minhas imagens foram usadas em registros de pesquisa e na divulgação tanto do voluntariado quanto do próprio local como um destino turístico – as Cataratas Vitória são consideradas uma das sete maravilhas naturais do planeta.

Ao contrário de minha primeira experiência, quando fui à África do Sul por uma agência brasileira, desta vez a intermediação entre mim e a ONG local foi feita pela empresa African Impact, que atua em mais de dez países africanos com diversos projetos sociais e ambientais. Atualmente, a African Impact é uma das parceiras da Trip Voluntária e você pode contar com a gente para encontrar um projeto de voluntariado na África por meio dessa agência multipremiada e internacionalmente reconhecida.

Minha viagem foi de 24 de novembro a 20 de dezembro de 2014. Devido ao envolvimento mais intenso com a natureza e à atividade de fotografia, a lista de compras para a viagem contava com alguns itens específicos, como: capa de chuva, jaqueta impermeável, repelente, squeeze, roupas de cores pouco vibrantes para caminhar na savana, tripé, lente, cartão de memória etc.

A chegada

Após o desembarque, na área comum do aeroporto, um funcionário da ONG Lion Encounter estava à minha espera. Entramos em uma van e rodarmos por uns quinze minutos em uma rodovia de mão única, até que comecei a observar algumas construções à beira da estrada. Pareciam-se com mansões, hotéis, clubes ou algo do gênero. Logo em seguida, adentramos à pequena cidade de Victoria Falls. O ônibus parou em um bolsão onde havia meia dúzia de lojas, uma das quais era o escritório da organização.

Ficamos por lá por mais alguns minutos, para depois nos dirigirmos ao alojamento. A van afastou-se do centro da cidade e, depois de um tempo na rodovia, paramos em frente a uma cancela guardada por um patrulheiro armado. Sobre o portal da entrada lia-se: “Zambezi National Park”. Passamos pela cancela e, em cinco minutos, paramos em frente a dois alojamentos. Bob orientou-me a seguir para uma das casas, onde ficaria hospedado junto de Jessie, uma voluntária britânica que também estava chegando naquele dia.

A casa era toda verde e tinha duas entradas: uma pela cozinha, à esquerda, e outra por uma varanda, à direita. Em seu interior havia, além da cozinha, um banheiro e três quartos, equipados com alguns armários e camas. Apenas em um dos quartos havia um mosquiteiro. Deixei Jessie ficar com ele e peguei o quarto ao lado, cuja saída dava para a varanda. Da janela do meu quarto, a cerca de vinte metros de distância, estava o Rio Zambezi, o quarto maior da África.

A orientação de Bob era que deixássemos nossas coisas no quarto e saíssemos em seguida, pois ainda haveria tempo para um “game count” antes do sol se pôr. “Game count” era uma das principais atividades de pesquisa e preservação realizada pela ONG ali no parque nacional: consistia em sair para um safári e contabilizar cada mamífero avistado, indicando quantidade, idade, sexo, localização, horário e atividade que estavam realizando. Além da infinidade de impalas e javalis avistados, poderíamos encontrar outras espécies de cervos, zebras, búfalos, gnus, hipopótamos, girafas, elefantes, leopardos e leões.

141124bufalo
O primeiro búfalo avistado no game count

Dentro do parque, as regras eram rígidas: era obrigatório retornar para a área dos alojamentos antes do pôr do sol. Assim sendo, rodamos por cerca de quarenta minutos até darmos meia volta em direção à saída.

Somente aquele primeiro dia já fez com que eu me desse conta da diferença entre minha experiência na Cidade do Cabo e o que seria meu próximo mês em Victoria Falls. Enquanto na África do Sul eu precisei viajar por duas horas até chegar a uma reserva natural onde foi possível observar um único elefante, em poucas horas no Zimbábue eu já havia me deparado com uma família inteira deles, além de zebras, búfalos, pumbas e antílopes!

Todas as noites, eu repetia um ritual: depois de tomar um banho, trocar de roupa e cobrir-me de repelente, dirigia-me até o chalé da frente, onde o jantar era servido, geralmente na varanda, de frente pro rio, debaixo de um céu coberto de estrelas e cercado por insetos que nunca havia visto na vida.

No começo, foi difícil me acostumar com besouros, mosquitos e outros bichos voando ao meu redor e batendo na minha cabeça enquanto comia. O jantar era composto por uma carne – bovina, de frango ou de peixe – legumes e arroz ou macarrão, além de uma salada. Com raras exceções, a comida era sempre deliciosa, muito bem temperada e saborosa. Para a sorte dos voluntários que, assim como eu, gostam de cerveja, o consumo da bebida é liberado: quem quiser pode comprar algumas latinhas ou garrafas no mercado da cidade e estocar no refrigerador do chalé. Obviamente, é obrigatório beber com moderação: abuso de álcool não é permitido e pode resultar até mesmo em expulsão do projeto.

O dia-a-dia

Durante a semana, minha rotina matinal era a seguinte: acordar às seis horas, tomar um banho, escovar os dentes, colocar uma roupa, tomar um comprimido do remédio contra malária e ir para o alojamento da frente. Fazia parte do ritual percorrer a distância entre as duas casas olhando atentamente para o chão, identificando as pegadas de animais selvagens que passaram por ali durante a noite. As marcas mais comuns eram de búfalos e hienas.

Chegando no alojamento dos meus guias, tomávamos um café preto – na verdade, um pó solúvel que misturava grãos de café com os de outros cereais locais – e aguardava o veículo que me levaria ao trabalho. Geralmente, era um carro típico de safáris, aberto nas laterais e um toldo no teto, com bancos plásticos, que chegava por volta das sete horas da manhã. Partia então para a primeira atividade, que durava até geralmente as dez horas, quando era servido o café da manhã. Dependendo do roteiro do dia, comíamos em pleno campo, para não desperdiçar tempo voltando até o alojamento.

Depois do café, o trabalho seguia por mais algumas horas. No meio do dia, voltávamos para o alojamento, onde recebíamos o almoço. Na sequência, algumas horas livres, geralmente utilizadas para descanso, já que o calor intenso impedia a maioria dos trabalhos. Até mesmo os animais costumavam estar recolhidos naquele horário, portanto não faria sentido voltar a campo. Às quatro da tarde, o trabalho era retomado, e seguia até o pôr do sol.

Os trabalhos

Além do já mencionado “game count”, havia muitos outros trabalhos para cumprir por lá.

Um deles era a coleta de insetos, atividade dividida em três fases e que exigia pelo menos dois dias de atuação por parte da equipe. Em uma manhã, partíamos para um dos pontos pré-determinados da savana e, acompanhados de um patrulheiro armado, plantávamos algumas armadilhas para insetos – na realidade, quatro potes de plástico preenchidos com água até a metade e, no meio do quadrado formado por eles, uma bandeja de metal também com água.

Ali as armadilhas permaneciam por 24 horas. No dia seguinte, voltávamos ao local para recolher as amostras de insetos coletados. No alojamento, contávamos e identificávamos as espécies com a ajuda de um livro especializado. No futuro, os dados coletados ao longo do tempo forneceriam um panorama dos insetos que habitam o parque Zambezi.

141210bug01
A aranha mais fofa e esquisita que já vi na vida

Outra atividade de campo – uma das minhas preferidas – era o rastreamento de grandes mamíferos. Bem cedo pela manhã, nos dirigíamos a uma das várias estradas de areia que cortam o parque nacional. Ali, caminhávamos alguns quilômetros procurando por qualquer indício de presença de grandes mamíferos: pegadas, dejetos, pelos, etc. Além do prazer da caminhada matinal, gostava de acompanhar o trabalho investigativo dos guias, que lembra o de um perito analisando a cena de um crime. Eles eram capazes de construir histórias como “dois leões jovens machos caminharam por aqui aproximadamente quatro horas atrás”, “este elefante cruzou a estrada e se alimentou nesta árvore, como mostram os galhos quebrados, depois seguiu até o olho d’água” ou “o grupo de hienas alimentou-se dos restos de um antílope, de acordo com os pelos presentes nas suas fezes”. Era praticamente um CSI África.

O objetivo do rastreamento é identificar padrões de hábitos e movimentação dos animais e facilitar o trabalho dos motoristas de safáris turísticos na hora de localizar os Big Five – a atividade é fundamental para a manutenção do parque. Durante nossas caminhadas, às vezes cruzávamos com elefantes, situações um pouco tensas mas sempre muito divertidas.

Enfim, havia a identificação de pássaros, trabalho conduzido tanto na savana quanto no campo de golfe de Victoria Falls. O objetivo desta atividade é simples: identificar as espécies para elaborar um livro de pássaros do Zimbábue, algo até então inexistente. A equipe utiliza um catálogo de aves da África do Sul que, apesar de bastante similar, não pode ser considerado completo no que diz respeito à fauna do Zimbábue.

141204bird00
Um dos resultados do trabalho de catalogar os pássaros do Zimbábue

Essas quatro atividades – game count, coleta de insetos, rastreamento de grandes mamíferos e identificação de pássaros – resumem as tarefas regulares ligadas à pesquisa e preservação ambiental. Além de colaborar com os procedimentos, meu papel era fotografar o trabalho tanto para arquivo da ONG quanto para auxiliar o trabalho de marketing.

Mas minha rotina semanal envolvia também outras atividades, relacionadas às questões sociais – o que me interessava ainda mais. Tais atividades incluíam aulas sobre preservação ambiental para alunos de uma escola primária e visita ao abrigo de órfãos Rose of Charity. Neste último, o trabalho lembrava muito aquele que desenvolvi na Cidade do Cabo: basicamente, brincávamos com as crianças e ajudávamos em tarefas rotineiras da instituição. Como meu tempo ali era curto, decidi aproveitá-lo ao máximo para me envolver com as crianças, ganhar a confiança delas e tirar muitas fotos que seriam usadas posteriormente para divulgar meu trabalho.

141203kid03
Um dos garotos do Rose of Charity, brincando no quintal do orfanato

Por fim, havia o trabalho que era o preferido de nove entre dez voluntários: a preservação de leões. Ali, os grandes felinos eram criados em cativeiro, acompanhados de perto diariamente e, após certa idade, adaptados à vida selvagem, até que estivessem prontos para serem entregues à natureza. Voluntários alimentavam os animais e, principalmente, acompanham os passeios dos leões, que aconteciam duas vezes por dia, anotando minuto a minuto o comportamento deles. Essas caminhadas também eram uma atração turística de grande relevância financeira para a ONG. Toda quinta-feira à tarde eu me juntava aos voluntários dos leões para acompanhar seu trabalho.

Há uma série de regras para aqueles que caminham lado a lado com os leões: não correr, não andar com objetos pendurados, permanecer em grupo, não tocar a cabeça dos animais, não dar as costas para eles, não deixar seus pertences no chão e manter um cajado de madeira na mão, que deve ser usado para distrair os felinos, caso necessário.

Muitas vezes, os turistas não respeitam as regras e, além de prejudicar o trabalho, algumas vezes até colocam a si mesmos em risco. Lembro-me de uma mulher que insistia em passar a mão na cabeça de uma leoa, até que quase levou uma mordida e, por pouco, não sofreu um grave acidente.

141204gulion
Chegar perto dos leões é perfeitamente possível; basta respeitar as regras e a fera

Antes de todas essas atividades, porém, passei por alguns treinamentos preparatórios nos quais obtive uma série de informações a respeito do país e adquiri muitos conhecimentos técnicos relacionados a fotografia. Logo no início, tivemos aulas de Shona e Ndebele, os dois idiomas mais falados no Zimbábue, e da história do país. Passei também um dia inteiro com Joe, o coordenador do meu voluntariado de fotografia, que ensinou-me comandos básicos e deu dicas para boas fotos.

O voluntariado pela ONG Lion Encounter, no Zimbábue, foi um dos mais interessantes que já participei, por conta da oportunidade de passar por todos os tipos de trabalhos desenvolvidos por eles; isso sem falar das visitas que realizamos em algumas comunidades rurais, o que enriqueceu ainda mais a experiência.

Saiba mais sobre este e tantos outros projetos de voluntariado na África oferecidos pela nossa parceira African Impact acessando www.tripvoluntaria.com/projetos-na-africa ou escrevendo para tripvoluntaria@gmail.com!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s