Como é ser voluntário no lixão de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro?

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Foto: Luiza Veloso

Meu presente de aniversário para mim mesmo em 2018 foi participar da Expedição Jardim Gramacho promovida pelos nossos parceiros da ONG Reviva. Mensalmente, a organização visita a comunidade para contribuir no seu desenvolvimento e colaborar com as iniciativas de moradores locais.

Em 30 de junho, Luiza e eu madrugamos para chegar em São Bernardo do Campo no horário programado para a partida. Partimos em um carro no qual também estavam os dois responsáveis pela Reviva, Bia e Bruno, além de mais uma voluntária.

Chegamos no Rio de Janeiro na hora do almoço. Durante a refeição, fomos apresentados à Cláudia, moradora do Jardim Gramacho e responsável por iniciar uma escola infantil nas mesmas instalações onde funciona uma igreja evangélica. Ela foi a escolhida para receber o apoio da ONG.

Depois do almoço, fomos para o local de trabalho. Chamou a atenção os cuidados para entrar em um território no qual o poder público não tem o controle real da segurança e do monitoramento. Tanto as atividades da Cláudia quanto as da Reviva apenas podem ser realizadas com a permissão das autoridades de fato no Jardim Gramacho.

Naquele final de semana, a escola seria inaugurada oficialmente e nosso papel era organizar o espaço, separar os uniformes das crianças e cuidar dos preparativos da festa que aconteceria no domingo. A grande atração era uma oficina de grafite a ser oferecida para as crianças, no intuito de decorar os muros ao redor.

Passamos a tarde de sábado arrumando as doações recebidas. No início da noite, fomos ao mercado fazer compras e, depois, preparar os doces da festa. A ONG Reviva reservou um hostel no bairro do Botafogo, onde jantamos e descansamos.

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Logo cedo no domingo tomamos o café da manhã e voltamos para o Jardim Gramacho. Quando as crianças chegaram, os voluntários dividiam-se entre cuidar e entreter os pequenos, cozinhar e terminar a decoração do espaço.

Como era de se esperar, os meninos e meninas – cerca de 20 – ficaram ainda mais agitadas quando tiveram a oportunidade de usar os sprays de tinta nas paredes e muros. A instrutora bem que tentou orientá-los a respeito da maneira correta de pintar e dos cuidados a serem tomados, mas isso não os impediu de espirrar tinta uns nos outros ou em si mesmos. Logo, não havia um espaço sem tinta à nossa volta.

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Na hora do almoço, servimos esfihas, lanches e refrigerante. A Cláudia também conseguiu uma cama elástica para animar a festa.

Quando tivemos a oportunidade de andar pela comunidade, liderados pela Cláudia, fiquei chocado com a condição na qual aquelas pessoas vivem. A miséria e a total falta de condições de higiene e saneamento básico faziam daquele lugar o cenário mais triste e impactante que eu já pude conhecer.

O lixão do Jardim Gramacho foi oficialmente desativado em 2012. O que, à época, foi tratado como solução do problema, tornou-se um enorme agravante. O aterro continua funcionando de forma clandestina, sob vista grossa dos governantes, porém a vida já difícil daquelas famílias que dependiam do lixo despejado no local tornou-se quase impossível. Dominado pelo tráfico, aquelas pessoas vivem esquecidas pelo poder público e pela sociedade, à mercê da própria sorte em terra arrasada.

Os barracos construídos sobre chão de terra viviam inundados e misturavam-se ao esgoto a céu aberto. O lixo acumula-se em todos os lados para onde se olha. No meio dele, animais vagam à procura de algo para comer enquanto as crianças se arriscam a brincar. Ainda que as organizações que tomam conta do Jardim Gramacho, por meio de seu próprio código de ética e conduta, tente proteger os moradores, a segurança e as condições para tratamento da saúde entraram em colapso e praticamente inexistem hoje em dia. É comum cruzar com gente entorpecida e com a consciência totalmente alterada por conta do consumo de álcool e drogas.

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Fomos embora do Jardim Gramacho no fim da tarde de domingo, exaustos e pensativos, processando em nossas mentes tudo aquilo que nos foi apresentado nos últimos dias.

A Expedição Gramacho não é uma experiência fácil de digerir; não a indico àqueles mais sensíveis e apegados ao conforto físico e psicológico. Ao mesmo tempo, é fundamental para conhecer uma realidade extrema, porém ainda muito presente em nosso país, quebrar preconceitos e estereótipos, valorizar aquilo que se tem e contribuir um pouco para diminuir a angústia e sofrimento de pessoas que vivem em situação de total abandono.

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Nós e a pastora Cláudia, responsável pela escola no Jardim Gramacho. Foto: Victor Balde

Para saber mais, acesse: http://reviva.org.br/expedicao-gramacho/

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