[OPINIÃO] Polêmica: Rafa Kalimann e as viagens de voluntariado na África

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Imagem: Reprodução/Instagram

A participação da influencer Rafa Kalimann durante o Big Brother Brasil 20 trouxe à tona um debate que já é feito há bastante tempo por quem viaja ou atua em ações sociais: é certo postar fotos e vídeos de trabalho voluntário?

Qual é o caso?

Rafa é embaixadora da ONG Missão África e realizou viagens como missionária para a África. A polêmica gira em torno do fato dela publicar diversas imagens de seu trabalho por lá, muitas vezes seguindo os clichês de selfie com criança no colo, sorrindo pra câmera, com legendas cheias de positividade e autoajuda.

Muitos a acusam de se valer do voluntariado para promover a própria imagem. Há, ainda, a questão religiosa, uma vez que sua atuação está ligada à fé cristã evangélica.

Há quem a defenda dizendo que, independentemente da exposição, ela está ajudando pessoas – e muitos que a criticam não fazem nada pelos outros. Já os ataques a Rafa giram em torno do fato dela reproduzir o estereótipo do branco salvador e do negro africano pobre e dependente, além da imposição de uma determinada religião.

O que a Trip Voluntária pensa a respeito disso?

Em primeiro lugar, temos que frisar que o debate é complexo e cheio de nuances. Em outras palavras: ninguém está totalmente certo ou errado e, principalmente, temos que partir do princípio que todos estão bem intencionados. Isso não significa que qualquer atitude possa ser relativizada ou que não existam comportamentos condenáveis.

Vamos partir do princípio de que Rafa Kalimann está fazendo o que acredita ser o certo e é bem intencionada. Isso é importante porque, se vamos questionar seu comportamento, temos que fazê-lo sabendo que é muito doloroso ver nossos valores e convicções serem questionados, assim como o processo de rever e alterar nossas crenças e hábitos é demorado. Quem nunca passou por uma desconstrução – tais como de conceitos machistas, racistas ou homofóbicos, tão enraizados em nossa sociedade – que atire a primeira pedra.

Voluntário é herói?

Praticamente todo viajante voluntário já passou pela fase de enxergar-se como herói, como cidadão exemplar, e assumiu uma postura muitas vezes arrogante em relação aos outros – muitos ainda não saíram dela.

Aos poucos, a tendência é perceber que o voluntariado não vai salvar o mundo e que nenhum voluntário é herói. As viagens de voluntariado são, na verdade, uma forma mais sustentável de turismo, capaz de nos colocar em contato com pessoas e situações do cotidiano da comunidade onde estamos e, eventualmente, fazer algo de bom por ela.

É justamente o que diz o lema da Trip Voluntária: “encurtar distâncias, aproximar pessoas, promover encontros, quebrar estereótipos para construir um mundo mais humano”. Acreditamos que o verdadeiro benefício de uma viagem de voluntariado é destruir preconceitos e ampliar a consciência e senso crítico do próprio viajante.

Afinal, como um voluntário deve agir?

Defendemos uma série de condutas éticas em relação às viagens, tais como: respeito ao meio ambiente, às comunidades e às pessoas; protagonismo dos agentes das comunidades durante todo o processo, desde o levantamento dos problemas até a implementação de soluções; criação coletiva, com o voluntário assumindo um papel coadjuvante, de facilitador e colaborador; e remuneração justa para toda a cadeia de profissionais envolvidos.

Esses valores, aliás, não servem apenas para as viagens de voluntariado, mas para todo o turismo. Acreditamos que a atividade turística – em especial o turismo comunitário – pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social, desde que praticada com ética e responsabilidade.

O caso Rafa Kalimann

Voltamos ao caso da Rafa. Fazer selfies, posar para fotos e expor pessoas em situação degradante, espetacularizando a pobreza, são atitudes vetadas aos nossos voluntários, os quais são orientados enfaticamente a não agirem assim e repreendidos sempre que desrespeitam a determinação.

Registros audiovisuais são importantes para a divulgação de nossas causas e até incentivamos que os voluntários façam publicações nas redes sociais, porém com uma série de restrições e cuidados. Na prática, o mais adequado é que o guia ou coordenador do trabalho faça as fotos e vídeos dos voluntários em ação, enquanto estes focam no auxílio que estão prestando.

Da mesma forma, consideramos arrogante a postura de voluntários que se colocam como “heróis”, assumindo o protagonismo da atividade. Esse condicionamento é exatamente o contrário do que julgamos ser saudável para fazer com que a viagem de voluntariado seja uma ferramenta para a quebra de estereótipos de povos e culturas historicamente oprimidos.

Por fim, também não aceitamos qualquer imposição ideológica, moral ou religiosa durante o trabalho voluntário. Pelo contrário: o voluntariado deve preservar e valorizar as manifestações culturais das comunidades onde ele acontece.

Assim sendo: reprovamos de forma empática as atitudes da influencer e missionária Rafa Kalimann, reconhecendo suas boas intenções e convidando-a para continuarmos essa discussão que consideramos fundamental, dada a exposição recente de seu trabalho na África e o número cada vez maior de pessoas viajando como voluntárias pelo mundo.

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